Existir na angustia que te observa de fora. Como uma realidade que observa e é observada. No sentido de, primeiro eu existo, logo penso. Minha existência já o fundamento do meu pensando. E meu pensamento, é condição da minha existência. Observo a realidade na tentativa de compreender processos e forças que orientam meu comportamento. Na ilusão ingênuo de chegar em alguma conclusão, sou absorvido pela mesma realidade que me observa.
Wikipedia
segunda-feira, 26 de junho de 2023
quarta-feira, 21 de junho de 2023
ABSURDAMENTE ACIDENTADO
O absurdo que organiza a vida, mas também desorganiza. Não é possível controlar o contexto e o desenvolvimento das relações sociais. São condições da existir e não temos controle sobre elas. Procurando diminuir o ímpeto da necessidade de existir, costumo fazer caminhadas. Durante a caminha de hoje, aconteceu um acidente entre um carro e o moto. Pelo barulho e som do impacto a batida foi forte. O motociclista ficou deitado sobre o asfalto. O que será que se passava na cabeça dele? Esse acidente foi um acontecimento absurdo? A via estava tranquila minutos antes. Havia acabado de passar por ali. Mas, em questão de poucos instantes, o contexto de modificou radicalmente. É essa vida desorganizada que chama a atenção e a sua infinita tentativa de coloca-la em ordem. Passados mais ou menos 15 minutos a ambulância chegou e realizou os primeiros socorros. E, o motociclista foi encaminhado para o hospital e voltei para casa.
terça-feira, 20 de junho de 2023
RENÉ DESCARTES: CONSIDERAÇÕES SOBRE A PRIMEIRA MEDITAÇÃO
1.INTRODUÇÃO: DAS TRANSFORMAÇÕES HISTÓRICAS AO MÉTODO
“[A]s trevas das dificuldades que acabam de ser agitadas.”
(René Descartes, 1974, p. 97)
A Europa entre os séculos XV – XVI estava sendo agitada por conflitos econômicos, políticos, religiosos e intelectuais. Essa agitação será o combustível necessário de inspiração e motivação de vários pensadores. Num momento histórico, em que as certezas e verdades estão colocados a prova, exigindo – se uma sistematização da produção de um conhecimento a partir de uma organização metodologia. E é neste contexto que o método será discutido pelos pensadores.
Em linhas gerais, o desafio seria encontrar um conjunto de regras certas e de facies aplicação na observação da realidade e na busca pela verdade. Com o qual seria possível evitar erros, desvios e fugir das falsas verdades. Os pensadores procuram por um método que poderia ser utilizados por qualquer pessoa que se interessasse pela busca do conhecimento verdadeiro.
Como mostra o professor Edgar José Jorge Filho (2014), o método teria uma função heurística na condução da procura pelo verdadeiro conhecimento. Além disso, ele, teria uma função disciplinar ao impedir erros advindos do exercício da dúvida. Abstruindo as falsas verdades, “Caberia ao método desbastar e construir o caminho mais fácil e seguro para a clareira da verdade, onde esta surgiria e brilharia por si.” (FILHO, 2014, p. 296).
Procurando contribuir com o debate a respeito da constituição de um método. No ano de 1641 é publicado o livro “Meditações sobre Filosofia Primeira”1 do filósofo francês René Descartes (1596 – 1650). Com esta obra, Descartes tinha como objetivo confrontar as verdades e certezas da sua época. Na data que o livro foi escrito, como foi dito, a Europa passava por transformações políticas, econômicas e religiosas que, impactaram radicalmente a intelligentsia europeia. Em resumo, as transformações e as recentes descobertas científicas haviam abalado o sistema de crenças aristotélico vigente. A terra já não era o centro do universo e o comportamento humano não seria mais governado por forças divinas.
Entre inúmeras descobertas científicas, a de Galileu Galilei (1564-1642), de que Terra girava entorno do Sol é uma, se não, a mais emblemática desde momento da história. Por conta disso foi condenado a morte em 1633. Acusado de heresia contra a Igreja Católica. Descartes acompanhou o caso e escolheu não se ausentar do debate intelectual que procurava constituir o pensamento humano a partir de premissas racionais.
A ciência moderna dava seus primeiros passos enquanto do antigo sistema de crenças e pensamentos desmoronava. A Europa da segunda matade do século XVI seguia por um caminho sem possibilidade de retorno. Este caminho, da qual Descartes foi uns dos pioneiros, estariam os germes do que viria a chamar-se Iluminismo.
Neste contexto social, Descartes, escrever seu livro em forma de Tratado. O Tratado enquanto gênero literário, permite ao autor apresentar uma visão sistêmica sobre o assunto. O que dá ao escritor uma maior liberdade para desenvolver suas ideias e pensamentos. Através de seis meditações, Descartes, procurar filosofar a respeito da construção da verdade por meio da dúvida metódica. Isto é, duvidar racionalmente com o objetivo real de encontrar a verdade real das coisas e reais objetos.
Nosso foco está na Primeira Meditação que leva o nome de “Das coisas que se podem colocar em dúvida”. Esta meditação está dividia em treze parágrafos que serão apresentados em seguida.
2.“DAS COISAS QUE SE PODEM COLOCAR EM DÚVIDA”: UMA RESENHA EM TREZE PARÁGRAFOS
Na “Primeira Meditação” de René Descartes elabora os pressupostos metodológicos daquilo que podemos chamar de “dúvida hiperbólica”2. Ao longo dos treze parágrafos, o autor procura através de um raciocínio lógico desconstruir antigos paradigmas e apresentar uma nova perspectiva metodológica. Em seguida, apresentamos a lógica da construção da argumentação de Descartes a partir da leitura, analise e síntese de sua argumentação.
No primeiro parágrafo, o autor procura fugir das falsas opiniões que dificultariam a busca pela verdade, como o senso comum. A fuga do senso comum e das falsas opiniões só foram possíveis graças a experiências adquirida com o amadurecimento “aguardei atingir uma idade que fosse tão madura” (DESCARTES, 1974, p.93). Ou seja, com a experiência da vida adulta e colocando em dúvida a formação filosófica que havia recebido, obrigando a tensionar as verdades e certezas que lhe haviam sido ensinados, ele, resolve por “dedicar-me-ei inicialmente aos princípios sobre quais todas as minhas antigas opiniões estavam apoiadas” (DESCARTES, 1974, p. 93).
Em seguida, no segundo parágrafo. Após considerar amadurecido para a empreitada, Descartes, se percebe apto a encarar o problema da verdade. Uma vez que, a experiência de vida lhe proporcionou um “espírito livre”, isto é, uma liberdade de pensamento. Dessa forma, o problema da busca pela verdade precisava de um refúgio. Esse refúgio se encontra na solidão que Descartes alega ter encontrado em sua vida amadurecida. No contexto de solidão, ou seja, isolado do mundo real e sensível, ele, desenvolver as premissas do seu método. Com o objetivo de destruir os preconceitos e julgamentos que havia aprendido sobre a realidade. Ou simplesmente, de duvidar de tais convicções.
Desenvolvido essa parte da meditação, Descartes, no parágrafo três, nos alerta que é preciso ter cuidado com as ideias que podem nos enganar, nos induzindo a erros: “experimentei algumas vezes que esses sentidos eram enganosos” (DESCARTES, 1974, p. 94). Dessa forma, se quisermos respeitar o princípio da verdade, devemos fazer questionamentos sobre nossas próprias certezas.
Duvidar das nossas próprias certezas será um dos caminhos para encontrar a verdade. Tento a consciência que os sentidos podem nos enganar. Uma vez que, nem tudo o que sentimos é real. No parágrafo quatro o filósofo propõem uma série de questionamentos sobre a realidade. Por exemplo, como posso negar aquilo que é real? Como posso duvidar daquilo que se apresenta como real? Como meu corpo, por exemplo? Será que posso ser enganado por meus sentidos? Minha subjetividade pode me trair? Como alcançar uma objetividade diante os fenômenos que vivo, sinto e penso?
Seguindo por esse caminho, no parágrafo cinco, somos questionados sobre nossa condição de sonhar a realidade ou de como a realidade pode ser um sonho. Posso ser enganado durante minha vigília e também posso ser enganado durante me sonho. Ou a vigília pode ser experimentada como um sonho. E o sonho pode ser experimentado como vigília. Em outras palavras, até que ponto o sonho pode torna-se realidade e a realidade pode torna-se um sonho?
Do mesmo modo que, o sonho e a realidade podem ser enganosos, “e meu pasmo é tal que é quase capaz de me persuadir de que estou dormindo” (DESCARTES, 1974, p. 94). Os loucos são guiados por seus sonhos, uma vez que, não conseguem distinguir o imaginário do real e o real do imaginário. Nesta perspectiva, o pensamento de um louco carece de um método de organização do pensamento e, consequentemente, da realidade. Descartes está dormindo ou acordado?
Quantas vezes ocorreu-me sonhar, durante a noite, que estava vestido, que estava junto ao fogo, embora estivesse inteiramente nu dentro de meu leito? Parece-me agora que não é com olhos adormecidos que contemplo este papel; que esta cabeça que eu mexo não está dormentes; que é com desígnio e propósito deliberado que estendo esta mão e a sinto: o que ocorre no sono não parece ser tão claro nem tão distinto quando tudo isso. Mas, pensando cuidadosamente nisso, lembro-me de ter sido muitas vezes enganado, quando dormia, por semelhantes ilusões. (DESCARTES, 1974, p. 94)
No parágrafo seis, percebemos que não nem uma coisa nem outra. O que ele quer nos mostrar que ao duvidar dos sonhos e da realidade estamos nos precavendo também sobre as falsas ilusões e as falsas representações da realidade. Ao mesmo tempo em que, consideramos que possa existir alguma verdade nas falsas ilusões e nas falsas representações. Assim como um artista que pinta um quadro representado de forma fictícia uma realidade. Ainda, será possível que “sua obra nos representa uma coisa puramente fictícia e absolutamente falsa, certamente ao menos as cores com que eles a compõem devem ser verdadeiras” (DESCARTES, 1974, p. 95). Apesar de o artista imaginar e pintar uma falsa realidade, existira elementos considerados verdadeiros em sua obra, como a dimensão do quadro, a textura, as cores. Que podem ser consideradas como verdades exteriores, simples e universais. Independente da realidade representada pelo artista, as verdades exteriores continuam existindo como certezas universais, como o espaço, o tempo e o corpo.
Na leitura do parágrafo sete, encontramos, o que podemos chamar de um “paradoxo sobre a verdade”, onde as imagens tomadas como reais são representados no pensamento e de certa forma poderíamos estar sendo enganados por essas representações, tal como, as ideias de quantidade, grandeza, número, lugar e duração:
“E pela mesma razão, ainda que essas coisas gerais, a saber, olhos, cabeça, mãos e outros semelhantes, passam ser imaginárias, é preciso, todavia, confessar que há coisas ainda mais simples e mais universais que são verdadeiras e existentes.” (DESCARTES, 1974, p. 95)
No parágrafo oito, Descartes, mostra que ciência estaria impactada por esse paradoxo sobre a verdade. De um lado, seria possível encontrar uma ciência que produziria conhecimentos incertos e duvidosos como a Astronomia e a Medicina. E do outro lado, uma ciência que produziria conhecimentos certo e incontornáveis, como a Aritmética e a Geometria. A verdade incontornável , esteja acordo ou dormindo, será sempre a mesma, pois, “dois mais três formarão o número cinco.” (DESCARTES, 1974, p. 95). Em resumo, as Ciências Naturais trabalhariam com as incertezas. Diferente das Ciências Exatas que, trabalhariam com a certeza. Afim, 2+3=5 estejamos acordados ou dormindo:
Pois, quer eu esteja acordado, quer esteja dormindo, dois mais três formarão sempre o número cinco e o quadrado nunca terá mais do que quatro lados; e não parece possível que verdades tão patentes possam ser suspeitas de alguma falsidade ou incerteza. (DESCARTES, 1974, p. 95)
Nos parágrafos nove e dez, Descartes, discorre sobre a construção de uma metodologia científica e da sua necessidade enfrentar o “problema de Deus”. No parágrafo onze, Deus é relativizado com o objetivo de conseguirmos alcançar a verdade das coisas. Deus é bom, mas ele pode nos enganar, “Mas pode ser que Deus não tenha querido que eu seja decepcionado desta maneira, pois ele é considerado soberanamente bom.” (DESCARTES, 1974, p. 95). Assim, colocar em dúvida se Deus pode me enganar é necessário. Deus, como elemento externo a minha consciência pode interferir na forma como percebo a verdade.
Por fim, nos parágrafos doze e três, Descartes, ensina que, é preciso duvidar da bondade de Deus. Afinal, Deus pode ser um “gênio maligno”, “preparei tão bem meu espírito a todos os ardis desse grande enganador que, por poderoso e ardiloso que seja, nunca poderá impor-me algo” (DESCARTES, 1974, p. 97). É preciso tensionar a credulidade em Deus. Sem perder de foco as contradições da busca pela verdade como a preguiça e a vida ordinária. De qualquer forma, a vida exige dos humanos tomadas de escolhas racionais. É ter a consciência sobre sua existência, tomando conhecimento de suas ações é um trabalho monumental da qual os indivíduos precisam deram conta. Mesmo em suas rotinas ordinárias e ações banais, podem revelar a verdade. Aplicando-se a dúvida cartesiana pode-se começar a encontrar algumas pistas que podem ou não, encontrar a origens das forças exteriores que influências meus pensamentos, seja Deus ou a sociedade, por exemplo.
Feita a apresentação dos treze parágrafos, cabe uma síntese do texto a luz do entendimento da pessoa que escreveu esse texto. De maneira geral, Descartes, elege três candidatos que poderão ou não nos conduzir ao conhecimento verdadeiro: 1.Os sentidos, 2.A realidade percebida e 3. As verdades matemáticas. Para cada candidato termos outro contra-argumentos. Os contra-argumentos seriam: 1.a. Os sentidos enganam, 2.b. A realidade percebida pode ser um sonho e 3.c. O gênio maligno enganador.
Dessa forma, o método desenvolvido por Descartes pode ser sistematizado a partir de argumentos e contra-argumentos organizados na lógica: 1 versus 1.a, 2 versus 2.b e 3 versus 3.c. O que pretendo demostrar com isso é que, Descartes, procura construir o seu método a partir de pares de oposições que compõem uma dúvida racionalmente orientada para a investigação da realidade, da verdade. Lembrando que, a ciência moderna na época que Descartes escrevia, carecia de métodos rigorosos de investigação. Isso nos leva a reconhecer os esforços filosóficos de Descartes em seu objetivo de contribuir com o desenvolvimento de um método capaz de organizar sistematicamente o conhecimento.
3.CONCLUSÃO: DESCONFORTO EXISTENCIAL
Ao terminar a leitura da Primeira Meditação, saímos com uma sensação de desconforto existencial. Afinal, como aprendemos com o método, essa sensação pode ser falso. Por que estaria desconfortável? Não se trata de saber “se existo” ou “quem sou”, se trata, de duvidar da formação que recebi, dos valores que foram transmitidos e dos pensamentos que forma ensinados. A partir do princípio da experiência temos, assim como Descartes, de buscar por respostas verdadeiras sobre nossa existência. É nesse sentido que a dúvida cartesiana produziria um desconforto existencial.
A dúvida cartesiano nos empurra para um abismo de incertezas. É isso, não necessariamente, é ruim. Temos que ter consciência das nossas imperfeições, incertezas e dúvidas. A produção do conhecimento científico nos obriga a manter uma “vigilância epistemológica”. Caso contrário, continuaremos produzindo e reproduzindo o senso comum sobre a realidade dos fenômenos. É nesse contexto que, passados quatro séculos desde as reflexões de René Descartes, que é possível reconhecermos a importância de seus escritos para a Ciência Moderna. Acima de tudo, a ciência diferencia-se dos outros conhecimentos, por causa de seu método. É este possui uma base filosófica que fora desenvolvido, aperfeiçoado e divulgado por pensadores que ousaram questionar as “certezas e verdades” de suas épocas. Entre eles, Descartes: “Cogito, ergo sum”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
-DESCARTES. R. Meditações. Ed. São Paulo: Abril, 1974.
-FILHO, E. J. J. Sobre a primeira Meditação Metafísica, de Descartes. O que nos faz pensar n°34. Rio de Janeiro. Cadernos do Departamento de Filosofia da PUC-Rio, 2014. Disponível em: <https://core.ac.uk/reader/234045445>. Acesso em 10 dez. 2022.
1Obra que tinha como subtítulo “em que se demonstra a existência de Deus e a imortalidade da alma”.
2Uma dúvida totalizante, sistêmica e generalizante.
domingo, 4 de junho de 2023
MORRER
"O ser humano é aquele ser que pode morrer, o ser que espera." Toda espera é uma forma de morte. Por isso, esperar é morrer.