"Tendo isso em vista, ou seja, se cabe afirmar a existência de um ‘dispositivo das drogas’,
creio que é possível estabelecer também que esse dispositivo gira em torno, em seus efeitos
visados, quer da produção de ‘pessoas’ tal como elas vêm sendo hegemonicamente concebidas
e efetuadas no Ocidente, isto é, tal como Sahlins (1992:24) as sintetiza, como “criatura[s]
imperfeita[s], com necessidades e desejos, cuja existência terrestre como um todo pode ser
reduzida à busca do prazer físico e à evitação da dor”, quer de modos de engajamento com o
mundo pautados pelo princípio de que a ‘boa morte’ é aquela que deve ser, tanto quanto
possível, adiada no tempo, de que a vida deve ser vivida em extensão (veja também Sahlins,
1996). Trata-se, portanto, de uma via de mão dupla: de um lado, é certa concepção em torno
da ‘pessoa’ no Ocidente ou certo modo de engajamento com o mundo privilegiado entre nós
que não somente legitima, como também incita o consumo (ou certas modalidades de consumo) de uma impressionante variedade de substâncias ao emprestar um fundamento cosmológico e uma disposição existencial aos critérios clínicos que se costuma acionar para tornar
recomendáveis ou, ao menos, toleráveis, certos consumos dessas substâncias (isto é, das drogas
de uso lícito); de outro, é o consumo de substâncias como essas que empresta fundamentos
materiais à concepção da ‘pessoa’ e ao modo de engajamento com o mundo supra-referidos.
Não obstante, talvez fosse mais preciso afirmar que se trata de uma única via virada ao avesso
como num anel de Möbius, pois de um lado a outro se passa sem solução de continuidade." Eduardo Viana Vargas.
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